.OKEY CABOCLO!

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OKEY CABOCLO!

22/02/2012

MEU CABOCLO QUERIDO









Eram 18:00H e Jorge já dava os últimos retoques em seu terno, para assistir a mais uma reunião na Igreja Evangélica Neopentescostal que freqüentava há um ano.

Homem trabalhador, desde jovem já exercia a profissão de carpinteiro. Hoje, aos 60 anos, com esposa e um neto, tinha vida humilde e tranqüila, apesar dos problemas de saúde e finanças que o afligiam.

Carregava uma grande mágoa em seu coração. Tendo sido médium umbandista atuante por mais de 20 anos, deparou-se com uma enfermidade que atingiu violentamente sua única e amada filha.

Rogou a Deus, a seu Guia Espiritual e as demais entidades espirituais do terreiro em que trabalhava que a curassem.

Não logrou êxito, perdendo a presença física de sua filha em 6 meses.

Revoltado com a tragédia, abandonou a Umbanda e afirmou que jamais voltaria a religião, pois se ali estivessem espíritos do Bem e Deus, não teriam deixado que tão grande desgraça lhe atingisse.

Sob grande instabilidade psíquica e induzido por fanáticos evangélicos, lá estava ele, ao lado da esposa, nos cultos da igre ja, cujo “ministro religioso” exortava todos os presentes a exconjurarem 'os espíritos malignos da macumba', além de prometer a salvação e... pedir dinheiro.

Jorge não reclama, dando seu dízimo e ofertas com dificuldade, mas acreditando ser o caminho a seguir.

Em suas horas de descanso, na paz do convívio familiar, Jorge quase sempre ouvia uma voz estranha, que lhe dizia: “sempre estarei ao seu lado”.

Comentava o fato com a esposa que, influenciada pelo fanatismo religioso, dava como resposta que deveria ser um espírito maligno que o acompanhava, aconselhando- o a comentar o assunto com o pastor da igreja.

Resolveu seguir os conselhos de sua mulher, procurando, durante um culto, esclarecimentos com o “missionário”.

Este informou-lhe que as ocorrências eram obra do diabo, solicitando a Jorge que aumentasse o valor de suas ofertas para que Deus pudesse operar em obra e graça na sua vida (a vida de Jorge).

Com imensa dificuldade, dobrou o valor do dízimo e das ofertas. Contudo a voz insistentemente lhe invadia, dizendo: “sempre estarei ao seu lado”.

Numa tarde de domingo, após o almoço, Jorge preparava-se para descansar em seu leito, quando bruscamente foi vitimado por uma forte dor no peito, próxima ao coração.

Caiu desmaiado, sendo acudido por sua esposa, que aos berros rogava ajuda dos vizinhos.

Colocado em um táxi, rumou às pressas para o hospital mais próximo, a fim de ser atendido.

Após o pronto-atendimento e posteriores exames clínicos, foi diagnosticado uma insuficiência cardíaca provocado por uma grande lesão nas artérias do coração.

O caso solicitava o concurso premente de intervenção cirúrgica, sem a qual Jorge certamente sucumbiria.

A operação foi marcada. Sua esposa, apavorada com o cenário, encaminhou-se para a igreja, a fim de solicitar os préstimos religiosos do pastor.

Foi atendida e aconselhada pelo missionário a aumentar as contribuições (...) (dinheiro) e a fazer um desafio a Deus pela cura de Jorge.

Desolada com o pouco caso dado à situação, voltou ao hospital, sendo ali informada que seu marido piorava e que, por isto, tinham antecipado a cirurgia.

Encostou-se a uma cadeira da recepção e começou a rogar a Deus pela saúde do amado esposo.

Ouviu então uma voz que lhe tocou como verdadeiro bálsamo consolador, que dizia: “eu sempre estarei com ele”.

Já na sala de cirurgia, Jorge, ainda acordado, pediu a Deus que o deixasse viver, pois tinha uma esposa e neto para sustentar.

Observando a movimentação dos médicos que preparavam a anestesia geral, Jorge notou intenso feixe de luz que surgia do canto direito daquele recinto.

De cores variadas e predominância do violeta, a luminescência pouco a pouco foi se condensando na figura altiva de um Índio, que empunhando uma moringa nas mãos, se aproximou do leito.

Jorge chamava pelos médicos, que não lhe escutavam. Perguntava-se mentalmente quem era aquele indígena.

Do interior da moringa, a Entidade Espiritual retirou um líquido verde e extremamente cintilante, derramando-o sobre o peito de Jorge, além de fazê-lo ingerir um pouco da substância.

Ato contínuo, o espírito desapareceu e Jorge adormeceu.
Quatro horas depois, despertou na enfermaria, notando a presença do médico e da esposa.

Perguntou sobre a operação e, para seu espanto, o médico que ali estava disse-lhe que a cirurgia fora cancelada, uma vez que momentos antes da aplicação da anestesia geral, o cirurgião-médico “cismou” em realizar novos exames, os quais não acusaram qualquer lesão nas artérias coronárias.

Também relatou a Jorge que durante os preparativos para a operação, a equipe cirúrgica sentiu uma enorme fragrância de ervas no recinto, cuja origem não conseguiram detectar.

Passados 2 meses de susto, Jorge, sentado sob a copa da mangueira em seu quintal, observava o lindo luar que despontava no céu estrelado.

Indagava-se sobre os acontecimentos passados, procurando uma resposta sensata para o que ocorrera; a cena na sala de cirurgias não lhe saía da mente.

A brisa corria suave, e com ela uma voz chegou aos ouvidos de Jorge: “sempre estarei com você”.

Virou-se na direção dos arbustos de seu quintal e, estático, visualizou a presença do mesmo índio presente no hospital.

A entidade espiritual, aproximando- se, informou a Jorge ser seu Guia Espiritual, Caboclo nominado aqui de “Y”, e que recebera ordens superiores para cura-lo da enfermidade.

Trazia também informações sobre sua querida filha, que estava bem e envolvida em trabalhos assistenciais dentro da Umbanda, salientando a Jorge que a doença de sua filha era processo depurador irreversível, motivo pelo qual não havia como interferir.

Jorge, profundamente emocionado, não conseguia expressar-se.

O Caboclo “Y” disse-lhe que respeitava sua mudança de religião, mas onde estivesse, ele, o Caboclo, sempre estaria a seu lado, em labor de amparo e aconselhamento.

O carpinteiro Jorge, sensibilizado pelas palavras do amigo espiritual, pediu desculpas pela falta de fé nos Guias e Protetores da Umbanda.

O Caboclo “Y” sorriu, ao mesmo tempo em que começava a perder sua forma ideoplástica por entre a vegetação.

Jorge observando a grande beleza cenográfica espiritual, relembrava os tempos de terreiro; as pessoas sendo auxiliadas; sua querida filha cambonando o Caboclo “Y”; a caridade pura e simples se manifestando, sem dízimos, ofertas, ou barganhas com Deus.

Jorge voltou ao seu antigo terreiro, sendo calorosamente recepcionado pelos amigos espirituais e carnais que o aguardavam.

Após cada sessão de caridade como instrumento de expressão dos amigos espirituais, Jorge, feliz por mais um dia de amparo aos necessitados, e relembrando da fisionomia de seu guia-chefe, no silêncio de suas preces, sempre exclama:

“Meu Caboclo, meu querido”


Publicado no Jornal Umbanda Hoje, 

( Jornal já extinto )




18/02/2012

13/02/2012

AUTÊNTICOS EM 1500, HOJE OU EM 2154?

É comum jornais, filmes e comerciais de TV suporem que os índios são (ou deveriam ser) iguais àqueles descritos pelos primeiros cronistas, inteiramente exteriores ao universo ocidental. Nessa representação, o tempo transcorreu de modo absolutamente diverso para “brancos” e “índios”. Uns, os não indígenas, estão situados na História e se caracterizam pela variabilidade, mudança e complexidade. Os outros, os indígenas, são como estátuas de pedra, que apenas podem apresentar-se como idênticas ao que antes (supostamente) eram.

Recusar ao índio a História e o exercício da própria voz, imaginando-o apenas antes da chegada dos brancos, é um expediente útil para silenciar sobre o violento processo de colonização, propiciando uma autoanistia aos colonizadores. É essa categoria redonda, inteiramente infensa à História, plena de seduções e lisa de culpas, que o senso comum repete e consagra incessantemente. Em estudos anteriores, eu apontei um artifício narrativo que chamei de “o efeito túnel do tempo”. O artifício garantia a qualquer não índio, como em um passe de mágica, uma flagrante superioridade em relação a qualquer indígena. É também com base nisso que a tutela, apesar de autoritária e etnocêntrica, veio a ser simploriamente legitimada como instituto necessário e até filantrópico.

Tal idéia está muito viva nas mais variadas manifestações discursivas dos brasileiros: artes, literatura, chiste e linguagem cotidiana. Os índios seriam algo apenas relativo ao passado colonial do Brasil, havendo uma enorme e generalizada dificuldade em compreender os índios atuais.

O reconhecimento se limita a faixas da Amazônia, onde ainda haveria grupos isolados e arredios (“índios verdadeiros”). Os demais são ditos apenas “remanescentes”, índios “misturados” e, no limite, “falsos índios”. Pretende-se instituir uma polaridade entre as culturas indígenas “intocadas” (seriam as autênticas) e aquelas afetadas por “processos de aculturação” (seriam inautênticas). Partindo daí, setores da administração pública colocam em segundo plano as demandas de “índios” no Nordeste, seja omitindo se face ao reconhecimento de suas terras, seja criminalizando suas lideranças e enquadrando- as em um regime carcerário próprio de praticantes de crimes hediondos.

Os direitos indígenas, tais como definidos na Constituição de 1988 e na Convenção 169 (acolhida no Brasil em 2003), não decorrem, porém, de uma condição de pureza cultural a ser comprovada nos índios e coletividades indígenas atuais, mas sim do reconhecimento pelo estado de sua condição de descendentes da população autóctone. Trata-se de um mecanismo compensatório pela expropriação territorial, pelo extermínio de incontáveis etnias e pela perda de uma significativa parcela de seu patrimônio cultural.

Não é justificado estabelecer parâmetros arbitrários para definir o que é (ou o que deva ser) uma cultura indígena. A incorporação de rituais, crenças e práticas exógenas não necessariamente significa que aquela cultura já não seria “autenticamente indígena” ou pertencesse a “índios aculturados”. Para constituir analiticamente uma cultura, é preciso partir do que pensam, fazem e sentem os seus portadores atuais. É preciso libertar-se do efeito “túnel do tempo”, da abordagem objetificante e da relação tutelar.

Os debates sobre Belo Monte nos evidenciam essa complexidade. Ali se expressam as velhas concepções sobre os indígenas, que alimentam tanto argumentos desenvolvimentistas quanto ambiguidades do discurso tutelar. Manifesta-se também uma tensão no interior do novo paradigma, uma vez que os indígenas buscam exercer o seu protagonismo, mesmo assumindo posições temporariamente antagônicas — como no caso da aldeia Paquiçamba. Aprender a respeitar e a lidar com a contemporaneidade do indígena será um aprendizado importante para as autoridades.


Os embates ideológicos fizeram curiosamente reviver o potencial utópico da figura do índio, apropriando- se agora da poderosa máquina de fabricação de mitos que é o cinema e remetendo-os ao futuro. A retórica dos ecologistas estabeleceu um paralelo entre os Na’vi e os indígenas atuais da região, visando a apontar os riscos para o ecossistema amazônico e mesmo planetário. A disputa pela autenticidade remete agora a 2154!

Texto de João Pacheco de Oliveira

02/02/2012

MENSAGEM DE UM CABOCLO MIRIM







A Grande Chance


Por onde passava percebia a aflição e grande ansiedade. Não era por menos, pois chegara o grande dia, onde outra oportunidade jamais teria.

Então fui chamado no local onde se reuniria os mais elevados seres do Astral. E a ordem foi ditada:


- Tem o direito em escolher uma família e um lar na crosta terrestre onde se juntará a outros. E terá a chance, em provar e queimar todos os negativos, para continuar sua evolução.

Logo a jovem com dons raramente vistos, recebe o que para mim não teria ao que se comparar.

Seria mãe, pela primeira vez em sua passagem terrena. Mergulhei em alegria, pois teria uma matéria a reencarnar.

Os dias passaram, a ansiedade novamente tomava conta do meu ser.

E como mágica um enorme túnel vi, por onde comecei minha importante jornada. Logo à frente a luz irradiava, ofuscando meus olhos. Não me importava, pois o pensamento era a certeza do sonho.

Quando pude enxergar não compreendi. O local em que estava parecia muito familiar.

Vi na minha frente mestres do Astral e, meio desorientado, percebi o que havia acontecido. Eu era mais uma vítima de um sonho interrompido e a ansiedade foi trocada por dor e decepção. Eu, fruto do aborto e abandono.

Fui levado novamente aos meus aposentos. O tempo agora era inimigo e a tristeza companheira. O Astral novamente me chamava para dizer que teria que continuar minha evolução.

- Será companheiro e a jovem agora terá seus dons desenvolvidos e aptos a levar a cura espiritual, alegria, harmonia e amor.

A mesma mente que roubara o direito a vida, levara sua mensagem a vontade em viver.

- Vá, pois nela esta a matéria para sua incorporação. Ela será a médium responsável por sua jornada.


E assim o fiz. Me aproximei primeiro em sonhos.

Projetava visões onde mostrava uma grande mata e, em seu meio, lindos rios. Logo enviei energias em seus centros nervosos até chegar a sonhada incorporação.

Esse seria meu objetivo. Mas sem entender novamente fui ignorado, negado, não aceito.

Hoje me encontro no meio dos meus sonhos. Estou sempre na imensa mata do conhecimento, entre os rios amorosos, onde me sinto acolhido a espera de médiuns que saibam que VIVER NADA MAIS É DO QUE A GRANDE CHANCE.



De um caboclinho 
dedicado a Adriana, uma irmã de santo.
Ditado a Rivaldo Gomes... / 2009
http://www.paioxalapaiogum.com.br/