.OKEY CABOCLO!

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OKEY CABOCLO!

24/02/2014

Lenda do beija-flor








Existiam duas tribos morando à beira de um rio: uma tribo maior e uma tribo menor.

A tribo menor plantava e pescava com muito afinco e, com isso,começou a ter mais peixe e maior abundância de alimentos.

Isto gerou inveja na outra tribo, que começou a hostilizar seus vizinhos, primeiro com palavras, depois com gestos e por fim declararam guerra àqueles que, mesmo em menor número, eram mais trabalhadores e eficientes.

Indiferente a estas questões, dois jovens se enamoraram, porém cada qual pertencia a uma tribo.

O rapaz pertencia à tribo menor e a jovem à tribo maior. Apesar da guerra, os dois se encontravam às escondidas, mas um dia os guerreiros da tribo da jovem a seguiram e os encontraram namorando.

Depois de espancar o rapaz e pensando que ele já estivesse morto levaram a jovem de volta à tribo.

O Conselho dos Anciãos foi convocado para o julgamento da pobre jovem. A acusação era de traição, já que as tribos estavam em guerra e eles acreditavam que ela passava segredos para a outra tribo.

A sentença era de morte, mas por ela ser muito jovem e bela, convocaram os Xamãs que resolveram transformá-la numa flor.

O rapaz, socorrido por seus guerreiros, sobreviveu ao espancamento e, tão logo se recuperou passou a procurar desesperadamente pela sua amada.

Ele chamou os anciãos e anunciou que iria até a outra tribo em busca de seu amor. Eles não permitiram tremenda loucura e tentaram, de toda forma, impedi-lo.

Afirmaram que na sua tribo existiam lindas moças que poderiam ser boa esposa e dar-lhe filhos fortes e saudáveis.

O rapaz estava irredutível e os anciãos, vendo tamanha decisão e tristeza do jovem, chamaram os xamãs para ajudá-los.

Depois de muito pensar e sabendo que a jovem amada tinha sido transformada em flor decidiram transformá-lo em Beija-Flor.

Segundo a lenda, é por isto que o Beija-Flor vai de flor em flor, sempre tentando achar a sua amada.

Em toda lenda índígena existe uma moral que os mais velhos ensinam aos mais novos e esta é que nunca se deve desistir do seu objetivo.



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A Lenda do Pássaro Cabeça-de-Vento









Numa tribo indígena, havia uma mulher que se sentia muito infeliz no casamento. O marido era um daqueles homens broncos, insensíveis, incapazes de um ato de verdadeiro carinho, mas que dizia amar muito a mulher.

Ela, a cada dia, se sentia mais oprimida por ele. Sabia que seria muito difícil deixá-lo, pois ele não aceitaria jamais este fato. Mesmo assim, teve coragem para dizer-lhe que iria embora. É claro que o marido não concordou e, de acordo com os costumes da tribo, ela teria de ficar com ele.

O marido, então, passou a oprimi-la ainda mais. E assim foram vivendo, por muito tempo.

Uma noite, porém, a mulher fez uma descoberta fascinante: depois que o marido dormia, ela podia deixar o corpo na cama, ao lado dele, e sair com a cabeça para voar.

Ele, dormindo, como de costume, passava a mão do lado dela e via que ela estava lá e continuava a dormir. Ela, a cabeça, voava por toda a floresta, conhecia lugares incríveis.

E assim foi por um bom tempo. Quase todas as noites, a cabeça ia passear sozinha, longe da opressão do marido.

Tudo ia mais ou menos bem, mas, uma noite, a cabeça voou para longe demais… e não conseguiu encontrar o caminho de volta.

Ficou só aquela cabeça a voar, perdida na floresta.

Ao amanhecer, o marido se deu conta de que só tinha o corpo da mulher consigo.

Ficou furioso. Não podia aceitar aquilo e, como tinha só o corpo, decidiu castigá-lo: surrou-o até a morte. Não satisfeito, esquartejou o corpo, queimou-o jogando as cinzas no rio.

E a cabeça? O Deus da tribo, para não deixá-la aquela vagando perdida pela floresta, transformou-a no “pássaro-cabeça-de-vento”. E foi assim que este pássaro surgiu na Terra. Um pássaro que traz consigo um grande ar de tristeza, mas que, no fundo, tem um quê de felicidade, pois é livre.

Contado por Ricardo Azevedo no curso “Elos entre o folclore e a literatura infantil” (Belo Horizonte – 2000)
Reescrita: Carmélia Cândida




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O amor - Caboclo Cobra Coral








O rebento do amor ao próximo nasce do respeito que se tem pela vida como um todo. Peço a cada um a quem esta mensagem chegar que faça algumas observações sobre si mesmo.

O quanto você tem declarado amor ao próximo?
O quanto você tem declarado amor próprio?

Obviamente a declaração não necessita ser em vias de palavras, a ação e o modo de enxergar se fazem igualmente importantes nesta análise.

Se tua vida hoje não corresponde ao esperado, o quanto tens regado de esperança a sua vida, pela manhã ou no decorrer do dia?

Muitas vezes o humano tende a creditar a Deus sua sorte e seus infortúnios, e, esquece-se que invariavelmente todo acontecimento seja dito bem, ou seja dito mal, obedece à lei das afinidades.

Peça a Deus sim, porém, nunca deixe de agir em prol de si e do próximo. Todos encarnam com o propósito do crescimento, portanto é altamente perigoso crer no acaso.


Com amor,
Caboclo Cobra Coral
Psicografado por Gilberto Cipriani Tortorella




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EL DORADO - REI DOURADO







Cenário da animação O Caminho para El Dorado, da Dreamworks (2000)
Criada por Ictoon



A lenda do Eldorado é uma das mais fascinantes páginas da conquista da América pelos ibéricos. Ela tornou-se conhecida a partir dos primeiros contatos dos espanhóis com o ameríndio. Até hoje, passados cinco séculos, ela permanece viva na mente das pessoas, sempre sugerindo riquezas incomensuráveis que estariam escondidas sob a abóbada verde da floresta equatorial, procuradas, cobiçadas, mas jamais encontradas. Há uma aura em torno desse tema romântico, tão exótico quanto sangrento.



Manuseando velhas crônicas espanholas amareladas pelo tempo; interpretando manuscritos de aventureiros e cientistas; comparando dados fornecidos por sábios, poetas e historiadores, a gente custa a adotar uma versão inteligível para esse símbolo mitológico - o Eldorado. As andanças épicas de todos aqueles que cruzaram a Amazônia, de uma maneira ou de outra, têm relação com a lenda. Ela empolgou cavaleiros e bandidos, reis e soldados, como uma bússola, cuja agulha apontava no rumo do sonho e da fantasia.

Fortunas foram gastas, vidas humanas sacrificadas, duelos se sucederam; terror, crueldade e traição - tudo era válido nesse frenesi de ilusão e cobiça. Vejamos então, como foi que a lenda do Eldorado exerceu ação tão poderosa sobre a mente do europeu  arrivista.

Primeiramente, os espanhóis dominaram o Caribe. Já,  desde as chamadas terras firmes do Darien, ao cruzarem o Panamá pestilento, eles começaram a ouvir histórias fantasiosas contadas pelos naturais, e ampliadas pela sua fértil imaginação. Escutavam atentos as referências ao Biru ou Peru, do lado do Pacífico. Um deslumbramento onírico pairava no ar e crescia, cada dia mais. Os corações batiam com ansiedade. Bastou Balboa transpor o istmo insalubre na madrugada do dia 15 de setembro de 1513, para os espanhóis esparramarem-se pelas costas do "Mar del Sur" (Pacífico), descendo pelas praias do Tahuantinsuyo (Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Chile). Pareciam um enxame de abelhas. Indiferentes aos perigos e à inclemência do clima, apoderaram-se e estabeleceram-se nas culminâncias andinas.

Os naturais continuavam falando em ouro, diamantes e esmeraldas - a única linguagem que realmente interessava aos conquistadores. Não queriam eles outro assunto. É claro que os nativos desejavam ver afastad os para longe de seu domínio aqueles intrusos indesejáveis, cruéis e prepotentes. Mesmo sem entender a razão, logo eles sentiram que o europeu tinha obsessão pelo ouro. Daí, a habilidade com que inventavam historias estapafúrdias, localizando as regiões auríferas em pontos afastados e quase sempre inacessíveis. Elas eram aceitas, coloridas e ampliadas pela cupidez espanhola.

Mas o ouro encontrado no Peru não foi bastante para satisfazer expectativas tão obstinadamente elaboradas. Não deu para mitigar a fome de lucro, tanto do general quanto do soldado. Os homens estavam decepcionados. Queriam mais e mais. Seu lema, então, passou a ser: fortuna ou morte.

Certo dia, em meio àquele delírio equatorial, um índio chibcha aprisionado em Cundinamarca por Luiz de Daza, ao narrar uma de suas fábulas, referiu-se ao Eldorado. Era a primeira vez que essa palavra era pronunciada. As atenções se fixaram. O assunto despertou o mais viv o interesse. Os espanhóis passaram a só falar nele. Fizeram tudo para obter do índio mais detalhes da narrativa. O índio, porém, não foi muito claro, quer por dificuldade lingüística, quer por não ser preciso na comprovação de seu relato. Desesperados, os conquistadores começaram a torturar o pobre selvagem, a fim de arrancar informações mais concretas. Como as coisas não corriam segundo seu desejo, passaram a garrotear o cacique, que acabou concordando em falar o que sabia e o que não sabia. Foi então que o príncipe indígena, antes de morrer, detalhou a impressionante narrativa, a qual acabou por reorientar o foco de atenção dos espanhóis para o interior da Amazônia.

Interessante uma observação: de tantas versões da lenda do Eldorado, apenas esta, narrada pelo cacique chibcha na alvorada da descoberta da América, é que foi confirmada, mais tarde, por Sebastião de Banalcázar. Ela consignava que, vencida a Cordilheira, a uma distância de 15 dias de caminhada no rumo do nascente, junto a um lago de águas tranqüilas, estava plantada uma cidade de delícias e riquezas incomparáveis. As casas eram cobertas de ouro; os utensílios, de prata pura, e as ruas pavimentadas com esmeraldas e rubis. Era a capital de um reino paradisíaco, onde vivia um cacique chamado Zipa. Todos os anos, após a brotação de uma planta medicinal, que os índios chamavam de "nachac", ultimados os preparativos, o cacique deveria celebrar o "sunna" - uma cerimônia expiatória e propiciatória, sobre as margens do lago.

Ao cair da noite, acompanhado por um numeroso grupo de guerreiros, sacerdotes e gente do povo, o Zipa fazia-se coroar solenemente, em um estrado armado sobre a areia da praia. Depois, com quatro dos mais altos sacerdotes, subia em uma balsa de junco, levando consigo muitos objetos de ouro, prata e diamantes; levava também, resinas aromáticas e essências odoríferas, para o ferecer às divindades lacustres Quia e Quinigágua. Chegado ao meio do lago, enquanto os sacerdotes seguravam tochas e queimavam incenso, o cacique atirava as oferendas ao fundo das águas. Em seguida, um servo cobria o corpo do chefe com uma substância resinosa. O mais graduado dos sacerdotes, então, soprando através de um canudo, cobria o corpo do príncipe com ouro pulverizado, só deixando os olhos a descoberto. Assim, totalmente dourado, resplandecendo à luz das tochas, em comovente cerimônia de imersão, o soberano mergulhava nas águas do lago, sobre-nadando até ver-se livre daquela pesada envoltura metálica.

Essa cerimônia era uma penitência relacionada com a falecida esposa do monarca. Acusada, ao que parece sem razão, de adultério com um dignitário da corte, ela sofreu uma humilhação terrível: em um banquete público foi obrigada pelo marido, a comer os órgãos genitais do amante, morto e mutilado de véspera. A mulher indi gnada declarou-se inocente, e apesar de torturada, recusou-se a cumprir a sentença. Exasperada, aos gritos, acabou desvencilhando-se dos guardas e fugiu, correndo em direção ao lago. Atirou-se às águas, juntamente com uma serva fiel e com a pequenina filha do casal, uma princesa adorada pelo pai. Surpreendido com aquele suicídio, o Zipa fez tudo para que os corpos fossem resgatados. Tudo em vão. Abandonadas as buscas, um astuto sacerdote convenceu o chefe de que o "gênio do lago" havia acolhido as mulheres no fundo, para uma vida melhor e mais feliz.

Dias depois, contudo, apareceu flutuando, e foi recolhido na praia, o corpo a princesinha, privado dos olhos e da genitália, em adiantado estado de decomposição. O mesmo sacerdote explicou, então, que o "gênio do lago" havia restituído os restos mortais da filha, naquele estado, a fim de castigar o pai cruel e indigno. Os corpos da esposa e da serva jamais foram encontrados. Então, o Zipa foi tomado de tal sentimento de culpa, que acabou chorando convulsivamente.

Com profundo remorso, fez uma promessa solene: todos os anos, naquela data, voltaria ao lago para depositar às águas as jóias mais requintadas do império. Supunha com isso expiar a sua culpa. E assim começou a fazer. Os sacerdotes providenciaram um engenhoso e invisível sistema de redes e drenos para, na calada da noite, recolher os objetos, dando a entender ao Zipa que o fantasma de  sua esposa retornava ao local, e acolhia jubilosamente as oferendas. A liturgia foi se repetindo nos anos seguintes, até ser incorporada ao calendário daquele povo. A tradição consigna que os Zipas que se sucederam prosseguiram com o ritual, até que as hordas de conquistadores espanhóis dispersaram o povo e acabaram com a prática do "sunna".

A partir de 1550 quase ninguém mais se lembrava do culto. O cerimonial estava definitivamente abolido. Esta lenda foi de tal modo difundida que o vocábulo "Eldorado", inicialmente atribuído ao cacique, passou a designar um reino, um território: o tabernáculo onde estava depositada uma arca com as maiores riquezas da Terra.

Desde aquela época remota, a lenda do Eldorado tem exercido uma ação sedutora sobre a mente dos homens. Mesmo em nossos dias, uma busca frenética continua. Ninguém mais procura o rei Dourado, mas, a "morada do sonho". O "império da ilusão" continua a desafiar a insaciável ambição da raça humana. O núcleo de habitações lacustres, no centro do qual ficava o palácio do Zipa, a capital do reino Eldorado, segundo os historiadores, chamava-se Manoa ou Quivira. Os topônimos Eldorado, Manoa e Quivira eram usados, indiferentemente, para designar o mesmo lugar.

Agora, a pergunta: em que parte da Amazônia estará o Eldorado?
No cimo da serra Zipaquirá, junto ao lago Guatavita, perto das Minas de Sal de Bogotá, na Colômbia? Em Liang anates? No vale do Orinoco, junto ao lago Maracaibo ou no interflúvio Meta-Guaviare? No sopé da serra Pacaraima?
Quem sabe, no vale do Rio Branco, ou na ilha de Maracá, no Uraricoera? Junto ao lago Janauari, próximo a Manaus? Quem sabe na região do extinto lago Parime, que durante dois séculos figurou nos mapas da América Meridional, e que, a partir de 1802, por influência de Humboldt, foi suprimido dos Atlas?

Com a pressão colonizadora vinda dos Andes, do Caribe, das Guianas e do Planalto Central Brasileiro; com essa periferia toda vasculhada sem resultado, quem sabe o Eldorado não esteja no interior ignoto da Amazônia Brasileira?
Ninguém pode responder.
No mundo racional, não há uma resposta. Só alimentamos esse assunto com a ajuda da sensibilidade onírica.
Afinal, o sonho conviveu e convive com a Humanidade.
Enquanto houver vida, haverá sonho.
E o que é a vida senão um sonho?

( Amazônia Legen dária - Altino Berthier Brasil - Ed. Posenato Arte & Cultura, 1999 )

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Glossário:


1.
 Chibcha: indivíduo dos chibchas, povo encontrado pelos espanhóis em Nova Granada no séc. XVI.

2. Estapafúrdia: diz-se de pessoa ou coisa extravagante, esquisita, esdrúxula, excêntrica, singular.

3. Onírico: relativo a, ou próprio de sonhos.

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Eldorado








Balsa de ouro encontrada em Siecha
Criada por Ictoon
Lagoa de Siecha
Criada por Ictoon

Eldorado (do castelhano El Dorado, "O Dourado"), Manoa (do achaua manoa, "lago"), ou Manoa del Dorado é uma lenda que se iniciou nos anos 1530 com a história de um cacique ou sacerdote dos muíscas, indígenas da Colômbia, que se cobria com pó de ouro e mergulhava em um lago dos Andes. Inicialmente um homem dourado, índio dourado, ou rei dourado, foi depois fantasiado como um lugar, o reino ou cidade desse chefe legendário, riquíssimo em ouro.
Embora os artistas muíscas trabalhassem peças de ouro, algumas das quais hoje formam o rico acervo do Museu do Ouro de Bogotá, nunca foram encontradas entre eles grandes minas, muito menos as cidades douradas sonhadas pelos conquistadores que pretendiam repetir a façanha de Francisco Pizarro no Peru. Tudo indica que os muíscas ou chibchas obtinham o ouro por meio de trocas com indígenas de outras regiões.
Sedentos por mais ouro, os conquistadores fizeram o mito migrar para leste, para os Llanos da Venezuela e depois para além, no atual  estado de Roraima ou nas Guianas. Na forma tomada pelo mito a partir do final do século XVI, a cidade dourada, agora conhecida como Manoa, se localizaria no imenso e imaginário lago Parima e teria sido fundada ou ocupada por incas refugiados da conquista de Pizarro.
O mito é semelhante ao de Paitíti ou Candire, que também seria uma cidade cheia de riquezas que teria servido de refúgio a incas que escaparam da conquista espanhola, mas costuma ser localizada muito mais ao sul, entre as selvas da Bolívia e Peru ou no Brasil, no Acre, Rondônia ou Mato Grosso. Os dois mitos têm origem comum no sonho de conquistadores de enriquecer repetindo a façanha de Francisco Pizarro, o conquistador dos incas, e influenciaram-se mutuamente, mas o de Paitíti associou-se, em tempos mais recentes, com a nostalgia de povos andinos pelo antigo Império Inca, ganhando conotações nativistas. 

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Lago Guatavita
Criada por Ictoon

 

O Eldorado na Colômbia

Editar a secção O Eldorado na Colômbia

Em 1534, logo depois que os espanhóis completaram a conquista do  Império Inca e refundaram a Kitu dos incas como San Francisco de Quito (no atual Equador), um índio foi lá solicitar ajuda dos espanhóis para a guerra de seu povo contra os muíscas. Ele afirmou que na terra dos muíscas havia muito ouro e esmeraldas e descreveu a cerimônia do homem coberto de ouro que, durante séculos, despertaria a cobiça dos conquistadores.
Cronistas relatam que, assim que o impulsivo Sebastián de Belalcazar ouviu a história, exclamou "Vamos procurar esse índio dourado!" Mas não foi o único. Belalcázar saiu de Quito em busca de El Dorado já em 1535, mas Nicolás de Federmann, que saiu da Venezuela no mesmo ano; e Gonzalo Jiménez de Quesada, que partiu da costa norte da Colômbia no ano seguinte. O último foi o primeiro a chegar à terra dos muíscas, perto de Bogotá e conquistá-los, em 1537. Os outros dois disputaram seu domínio da região em 1539, mas submeteram-se à arbitragem do rei da Espanha, que concedeu o governo da região de Popayán (ao sul) a Belalcázar. Quesada obteve os títulos de marechal do Novo Reino de Granada (nome que dera à região) e de Gobernador de El Dorado, voltando em 1549. Federmann nada obteve e foi processado pela família Welser, que financiara sua expedição, acabando por morrer na prisão.
Em 1568, com 60 anos, Jiménez de Quesada recebeu a missão de conquistar Los Llanos ("As Planícies"), a leste dos Andes, com a idéia de encontrar Eldorado. A expedição partiu de Bogotá com 400 espanhóis e 1.500 indigenas e alcançou a confluência dos rios Guaviare e Orinoco, mas não pôde prosseguir e retornou quatro anos depois, derrotada e reduzida a 70 homens. Com sucessivas explorações, a localização do suposto Eldorado foi se deslocando cada vez mais para leste, em território do que é hoje a Venezuela e depois o atual estado brasileiro de Roraima e as Guianas. 


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O Homem Dourado

 

Em 1636 Juan Rodríguez Freyle escreveu a versão mais conhecida da lenda na crônica El Carnero, dirigida a seu amigo Don Juan, cacique de Guatavita, localizando ali o mito:




A Balsa de El Dorado, no Museu do Ouro de Bogotá (arte muísca, 1200-1500 d.C.)
Criada por Ictoon

...Naquele lago de Guatavita faziam uma grande balsa de juncos, e a enfeitavam até deixá-la tão vistosa quanto podiam… A esta altura estava toda a lagoa cercada de índios e iluminada em toda sua circunferência, os índios e índias todos coroados de ouro, plumas e enfeites de nariz… Despiam o herdeiro (...) e o untavam com uma liga pegajosa, e cobriam tudo com ouro em pó, de manera que ia todo coberto desse metal. Metiam-no na balsa, na qual ia de pé, e seus pés punham um montão de ouro e esmeraldas para que oferecesse a seu deus. Acompanhavam-no na barca quatro caciques, os mais importantes, enfeitados de plumas, coroas, braceletes, adereços de nariz e orelheiras de ouro, e também nus… O índio dourado fazia sua oferenda lançando no meio da lagoa todo o ouro e as esmeraldas que levava aos pés, e logo o imitavam os caciques que o acompanhavam. Concluída a cerimônia, batiam os estandartes... E partindo a balsa para terra, começavam a gritaria... dançando em círculos a seu modo. Com tal cerimônia ficava reconhecido o novo escolhido para senhor e príncipe.
Segundo uma versão conada por Rodrigues Fesle em Conquista y descubrimiento del nuevo Reino de Granada de las Indias Occidentales de mar Oceano, os candidatos à sucessão do cacique ficavam presos numa gruta por seis anos, sem comer carne, sal ou pimenta; as mulheres lhe eram proibidas, assim como a luz do dia. No dia da entronização, seu primeiro ato consistia em entrar no lago para oferecer sacrifícios aos deuses, procedendo-se então à cerimônia já descrita, acrescentando-se o detalhe de um braseiro aceso levado a bordo da jangada.
Outra versão, referida por Enrique de Gandía na Historia Critica de los Mitos de la Conquista Americana (Buenos Aires: Juán Roldán, 1929) dizia que um cacique enganado pela mulher descobriu a traição e a obrigou a comer, numa festa, "os órgãos com os quais seu amante havia pecado" e ordenou aos índios que cantassem o crime diante de toda a aldeia enquanto durasse a bebedeira. Incapaz de suportar a humilhação, a mulher tomou a filha nos braços e jogou-se com ela no lago Guatavita. O cacique foi tomado pelo remorso, até que os sacerdotes lhe disseram que a mulher vivia em um palácio escondido no fundo das águas e podia ser honrada com oferendas de ouro. O cacique arrependido teria então passado a realizar a cerimônia.
Houve pelo menos duas tentativas de drenar o lago Guatavita em busca do suposto tesouro. A primeira foi em 1578, quando o mercador espanhol Antonio de Sepúlveda conseguiu uma licença do governo espanhol. Escavou um canal e conseguiu baixar o nível do lago em alguns metros, mas encontrou apenas dez onças de ouro.
Em 1801, Alexander von Hulboldt estudou o lago e mencionou-o em seus relatos, comentando que se a lenda fosse verdadeira, poderia conter centenas de milhões de libras em ouro. Sua especulação voltou a incendiar a imaginação de caçadores de tesouros e em 1825, o capitão Charles Stuart Cochrane, filho do Almirante Cochrane que comandou a frota chilena na guerra da independência, publicou um livro no qual dizia que ali devia existir ouro e pedras preciosas no valor de £ 1.120.000.000. Em 1898, foi formada a 'Company for the Exploitation of the Lagoon of Guatavitá', que dois anos depois transferiu seus direitos à firma franco-britânica 'Contractors Ltd.', com sede em Londres e cotada na Bolsa de Londres.
A empresa passou oito anos construíndo um túnel para esvaziá-lo a partir do centro, mas quando o leito do lago foi exposto, o fundo tinha metros de lama e limo, que tornavam impossível caminhar sobre ele. No dia seguinte, o sol cozeu a lama e lhe deu uma consistência de cimento, tão dura que não pdia ser penetrada. A lama endurecida bloqueou as eclusas, o túnel foi selado e o lago voltou a se encher até o nível anterior. Foram encontrados objetos no valor de £ 500 que foram leiloados na Sotheby's, mas a empresa faliu sem recuperar o investimento de £40.000 e a 'Company for the Exploitation of the Lagoon of Guatavitá' foi dissolvida em 1929. Outras sondagens foram tentadas com dragas e brocas até que, em 1965, o governo colombiano pôs o lago Guatavitá sob proteção legal, proibindo novas tentativas.
O lago Guatavita parece ter sido um centro cerimonal importante para a iniciação dos jovens que seriam coroados zipas ou reis de Bacatá (atual Bogotá), mas a origem da lenda pode ser a lagoa de Siecha (Casa do Homem, em muísca) perto da pirâmide do Sol, a 35 quilômetros de Guatavita. Ali foi de fato encontrada, em 1856, uma peça de ouro de 262 gramas, com a forma de uma balsa redonda com 9,5 cm de diâmetro, que parecia representá-lo. Revelada ao mundo em 1883 por Liborio Zerda, no livro El Dorado, foi comprada por um museu alemão, mas perdeu-se quando o navio que a transportava incendiou-se no porto de Bremen.
Uma segunda peça muito semelhante foi, porém, encontrada em 1969, por três camponeses, dentro de um vaso de cerâmica, em uma pequena gruta da campina de Pasca, Cundinamarca. Encontra-se hoje no Museu do Ouro de Bogotá e é sua peça mais famosa. Conhecida como "Balsa de El Dorado", pesa 287,5 gramas, tem 19 cm de comprimento por 10 de largura e altura e contém uma figura maior cercada de doze menores. 

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O Eldorado na Guiana 

 




Guiana sive Amazonum Regio, mapa de Guiljelmus Blaeu (1642)
Criada por Ictoon



Em 1584 o espanhol Antonio de Berrio partiu de Tunja (Colômbia) com a intenção de explorar o interior das Guianas e em 1590, na região do Orinoco, indígenas lhe disseram que a sete dias dali havia "uma infinita quantidade de ouro", cujas minas eram reservada aos caciques e suas mulheres, embora qualquer um pudesse extrair ouro dos riachos. Não alcançou, porém, as regiões em que os indígenas diziam estar localizado o lago Manoa, no outro lado das montanhas Pacaraima (Manoa, na língua Achaua significava "lago").

O relato da exploração foi redigido pelo lugar-tenente Domingo Vera, que teria feito acréscimos para suscitar a cobiça dos superiores, juntando à sua narrativa supostas revelações de um certo Juan Martínez, sobrevivente da expedição de Diego de Ordaz que teria vivido na capital de Eldorado. Martínez, tendo cometido uma falta grave, teria sido condenado à morte, condenação comutada, pela comiseração dos companheiros, no abandono do culpado numa canoa. Segundo a vesão contada mais tarde por Walter Raleigh:
Essa canoa foi levada pela corrente e encontrada flutuando por selvagens da Guiana, que nunca antes haviam visto um cristão. Eles levaram Martínez de de um lado para o outro, para que fosse visto como uma maravilha, e o levaram em seguida a Manoa, que é a capital do Império dos Incas. O Rei, que o viu, o reconheceu primeiramente como cristão e espanhol; porque não fazia muito tempo que os irmãos Guascar (Huáscar) e Atabaliba (Atahuallpa) estavam mortos, e que Pizarro tinha destruído seu império. Ele recebeu Martínez bastante bem, embora não houvesse esquecido a crueldade dos espanhóis.
Durante as festas dos guianeses, contava a narrativa de Martínez, "os servos untam os corpos dos notáveis com um bálsamo branco chamado curcay e os recobrem de pó de ouro, que sopram por meio de caniços, até que estejam brilhando da cabeça aos pés". Há ouro por toda a parte: na cidade, nos templos, sob forma de ídolos, de placas, de armaduras e de escudos. Sua capital era a cidade de Manoa, construída nas margens do lago Parima (ao qual inicialmente se tinha dado o nome de "Manoa"), ou "Parime", como o chamariam os ingleses.
Uma expedição militar inglesa se apossou dos documentos de Berrio e os comunicou à corte britânica, chegando então aos ouvidos do explorador e aventureiro inglês Walter Raleigh. Em 1594, conduziu sua própria exploração pelo Orinoco até o interior da atual Guiana venezuelana. Encontrou apenas uns poucos objetos de ouro e indícios de minério, mas que lhe bastaram para escrever um livro, 
A Descoberta do Grande, Rico e Belo Império da Guiana, com um Relato da Grande e Dourada Cidade de Manoa, que os Espanhóis chamam El Dorado,
com o qual se ampliou e popularizou a lenda.
Raleigh encontrou no porto de Morequito, às margens do Orinoco, um certo Topiawari, idoso cacique dos aromaias, cujo sobrinho, o anterior cacique, havia sido assassinado pelos espanhóis. O inglês lhe disse que vinha protegê-lo dos espanhóis em nome da rainha Elizabeth I e lhe perguntou sobre como chegar à Guiana que tem ouro e aos incas. O velho lhe respondeu que não podia chegar à cidade de Manoa com os meios que dispunha naquele momento. Se quisesse, ele e seu povo o ajudariam, mas precisaria da ajuda de todos os povos que eram inimigos do império para obter guias e suprimentos. Recordou-lhe que 300 espanhóis haviam sido vencidos nas planícies de Macureguarai e não haviam conquistado a amizade de nenhum povo da região. Havia 4 dias de viagem até
Macureguarai onde habitavam os súditos mais próximos do Inca e os epuremeis, que é a primeira cidade onde vive gente rica que usa roupas fabricadas e de onde provinham essas placas de ouro que se viam aqui e ali entre os povoados fronteiriços e que eram exportadas para toda parte. Mas aquelas produzidas no interior das terras eram muito mais belas e representavam homens, animais, pássaros e peixes.
O cacique explicou que havia guerra entre o povo fronteiriço a seu território e os epuremeis, que lhe haviam roubado as mulheres. Queixou-se de que antes tinham dez ou doze mulheres e agora tinham de se contentar com três ou quatro, enquanto os senhores de Epuremei tinham 50 ou 100. Um homem do séquito de Topiawari disse a Raleigh que se o acompanhassem, deveriam repartir o saque: "para nós as mulheres, para vocês, o ouro".
Topiawari lhe disse que o ouro não provinha de veios, mas do lago de Manoa e de muitos rios. Que misturam o ouro com cobre para que o possam trabalhar, fundem-no em vasilhas de barro com furos, o metem em moldes de pedra ou argila e assim fabricam placas e imagens. Mencionou várias nações inimigas dos incas, entre elas os ewaipanomas, que não têm cabeça. Disse que os epuremeis tinham a mesma religião dos incas. Apesar da distância do Peru, Topiawari sabia que os espanhóis encontraram os maiores tesouros entre os incas. Raleigh ficou convencido de que Manoa existia, mas não tinha meios suficientes para encontrá-la e esceveu seu livro para tentar convencer a corte inglesa:
E estou convencido de que em Guiana será suficiente um pequeno exército de infantaria que se dirija a Manoa, a pricipal cidade do Inca, para separar para Sua Majestade várias centenas de milhares de libras por ano no total o que lhe permitiria proteger-se contra todos os inimigos do interior, fazer frente a todos os gastos do interior. Além disso, o Inca manteria com suas despesas reais uma guarnição de três ou quatro mil soldados para defende-se contra outros países. Pois ele não pode ignorar como seus predecessores, em especial seus tios-avôs Huáscar e Atahuallpa, filhos de Huayna Cápac, imperador do Peru, que se bateram pelo império, foram derrotados pelos espanhóis e que estes últimos anos, depois da conquista, os espanhóis procuraram os caminhos que levavam a seu país. Eles não podem deixar de ter ouvido falar dos cruéis tratamentos que os espanhóis infligiram às populações vizinhas. Por estas razões, pode-se estar seguro de que ele será convencido a pagar seu tributo com muita alegria, pois não tem armas de fogo nem de ferro em todo o seu império e pode então ser facilmente vencido.
Antes de terminar recorda as profecias da chegada dos espanhóis e que, segundo elas,  
"graças à Inglaterra, os incas reencontrarão no futuro seu poder e serão libertados da servidão a seus conquistadores". 

Preso em 1603 por suposto envolvimento em uma conspiração contra o rei Jaime I, Raleigh foi libertado em 1616 para conduzir uma nova expedição ao Eldorado, que não teve sucesso, mas saqueou um posto avançado espanhol. Ao retornar, foi executado com base nas acusações anteriores e para apaziguar os espanhóis.
Raleigh acreditava que o Eldorado situava-se no vasto Lago Parima, que mapas da época situavam no interior da Guiana, aproximadamente onde hoje se situa o Estado de Roraima. Este lago, que nunca existiu, está presente na maioria dos mapas dos séculos XVII e XVIII e até em alguns mapas do início do século XIX, quando desaparece e é substituído pelo "Rio Parima", na região dos Tepuís do Monte Roraima.
Os responsáveis por seu definitivo desaparecimento foram o geólogo prussiano Friedrich Alexander von Humboldt e o botânico francês Aimé Bonpland, que viajaram entre o Orinoco e o Amazonas em 1800, em busca das nascentes do Caroni, que encontraram junto a uma pequena aldeia chamada Esmeralda, demonstrando a inexistência do suposto lago Parima. 





El Dorado, em gravura de Theodor de Bry (1599)
Criada por Ictoon


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Stevenson



Eldorado, na interpretação de Roland Stevenson
Criada por Ictoon



No livro Uma Luz nos Mistérios Amazônicos (Manaus, 1994), o pintor chileno Roland W. Vermehren Stevenson, morador de Manaus, ressuscitou a lenda do lago Parima. Afirmou ter descoberto vestígios de um caminho pré-colombiano extinto da bacia de Uaupés a Roraima, com restos de construções de pedra, pelo qual os incas teriam trazido ouro no lombo de lhamas e também ter identificado o que já foi o lago do El Dorado, Manoa ou Parima, que seria a chamada região de campos ou lavrado de Boa Vista, desprovida de selvas, onde apenas há árvores (buritis) mas margens de lagoas, rios e igarapés.

Ali teria existido o lendário lago, localizado entre Roraima e a antiga Guiana inglesa, com um diâmetro de 400 quilômetros e área de 80 mil quilômetros quadrados e sua extinção teria começado há cerca de 700 anos. Segundo Stevenson, a cidade de Manoa localizava-se na região ocidental do lago, conforme o indicavam as primeiras cartografias das expedições, a exemplo de Hariot, que a desenhou vizinha a uma ilha de terra firme. O local exato seria a ocidente do que hoje chamamos ilha Maracá, onde na época do lago cheio estaria a foz do rio Uraricuera.



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Mapa de Raleigh, com nomes dos rios interpretados por Roland Stevenson
Criada por Ictoon



Referências

Ana María Lorandi, De Quimeras, Rebeliones y Utopias: la gesta del inca Pedro Bohorque. Lima: Fondo Editorial de la PUC del Perú, 1997.
Jorge Magasich-Airola e Jean-Marc de Beer, América Mágica: quando a Europa da Renascença pensou estar conquistando o Paraíso. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
Parime: encontrado o lago lendário
Dalton Delfini Maziero, "Em busca dos antigos mistérios Amazônicos"
Wikipedia (em castelhano): El Dorado
Vicente Restrepo, Los chibchas antes de la conquista española, Bogotá: Imprenta de la luz, 1895
R. S. Dietz e J. F. McHone, "Laguna Guatavita: Not Meteoritic, Probably Salt Collapse Crater"
El Dorado, a persistent legend
Museo del Oro: Eldorado Raft
Emerald Stone: Cultura Muisca




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25/11/2013

A arrogância segundo os medíocres








“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.

“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.

Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.

Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).

Essa censura intelectual me deixa irritada. Isso porque a mediocridade faz com que muitos torçam o nariz para tudo aquilo que não conhecem, mas que socialmente é considerado algo de um nível de cultura e poder aquisitivo superior. E assim você vira um arrogante. Te repudiam pelo simples fato de você mencionar algo que tem uma tarja invisível de “coisa de gente fresca”.

Não importa que ele pague R$ 30 mil em um carro zero, enquanto você dirige um carro de mais 15 anos e viaja durante um mês a cada dois anos para o exterior gastando R$ 5 mil (dinheiro que você, que não quer um carro zero, juntou com o seu trabalho enquanto ele pagava parcelas de mil reais ao mês). Não importa que você conheça uma palavra em outra língua que expressa muito melhor o que você quer falar. Você não pode mencioná-la de jeito nenhum! Mas ele escreve errado o português, troca “c” por “ç”, “s” por “z” e tudo bem.

Não pode falar que não gosta de novela ou de Big Brother, senão você é chato. Não pode fazer referência a livro nenhum, ou falar que foi em um concerto de música clássica, ou você é esnobe. Não ouso sequer mencionar meus amigos estrangeiros, correndo o risco de apedrejamento.

Pagar R$200 em uma aula de francês não pode. Mas pagar mais em uma academia, sem problemas. Se eu como aspargos e queijo brie, sou “chique”. Mas se gasto os mesmos R$ 20 (que compra os dois ingredientes citados) em um lanche do Mc Donald’s, aí tudo bem. Se desembolso R$100 em uma roupa ou acessório que gosto muito, sou uma riquinha consumista. Mas gastar R$100 no salão de cabeleireiro do bairro pra ter alguém refazendo sua chapinha é considerado normal. Gastar de R$30 a R$50 em vinho (seco, ainda por cima) é um absurdo. Mas R$80 em um abadá, ou em cerveja ruim na balada, ou em uma festa open bar… Tranquilo!

Meu ponto é que as pessoas que mais exercem essa censura intelectual têm acesso às mesmas coisas que eu, mas escolhem outro estilo de vida. Que pode ser até mais caro do que o meu, mas que não tem a pecha de coisa de gente arrogante.

O dicionário Aulete define a palavra “arrogância” da seguinte forma:

1. Ação ou resultado de atribui a si mesmo prerrogativa(s), direito(s), qualidade(s) etc.

2. Qualidade de arrogante, de quem se pretende superior ou melhor e o manifesta em atitudes de desprezo aos outros, de empáfia, de insolência etc.

3. Atitude, comportamento prepotente de quem se considera superior em relação aos outros; INSOLÊNCIA: “…e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão.” (José de Alencar, A viuvinha))

4. Ação desrespeitosa, que revela empáfia, insolência, desrespeito: Suas arrogâncias ultrapassam todo limite.

Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros. São os outros que se colocam abaixo de mim por não ter os mesmos interesses, taxar esses interesses de “coisa de grã-fino” (sim, ainda usam esse termo) e achar que vivem em um universo dos “pobres legais”, ainda que tenham o mesmo salário que eu. E o pior é que vivem, mesmo: no universo da pobreza de espírito.


Por Carmen Guerreiro
http://ansiamente.wordpress.com/2012/05/10/a-arrogancia-segundo-os-mediocres/


28/10/2013

Conversa entre dois velhos amigos:




Pare de dificultar!
Preste atenção agora é hora de se cuidar, não é para fazer outra coisa, a não ser aprender a conviver com a paz.
Deixe pra lá o que não consegue compreender, deixa para depois, ou quem sabe para nunca mais, não fique preso à idéia que deve tudo controlar.
Solta tudo, até você mesmo das idéias de prisão onde se emaranhou, sempre analisando como fez ou como fizeram, dando uma nota de mais ou de menos e até se avaliando com desprezo por não saber fazer o que acreditava ter que saber.
Deixe as pessoas, elas estão aí para aprender.
Cada um é cada um, por mais que queira que tudo seja certo, descomplica de uma vez por todas, declare:
- Eu vou cuidar é de minha saúde agora, do meu bem estar!
Fique feliz nesta decisão, pare de se estranhar!
Agradeça poder ter tanta gente ao seu lado que lhe ajuda e que você também pode ajudar, assim cada um coopera com o outro do jeito que sabe, mesmo não se entendendo muito, tudo é só o que é, não adianta acelerar e querer uma conclusão..
Tudo segue... E um percebe o outro e nesta percepção o coração vai realizando os seus ajustes e suavizando o entendimento das diferenças.
Quando aceitamos as diferenças e as situações, a mente se abre para o que é realmente necessário fazer.
Avançamos, facilitando a compreensão, e temos a oportunidade de praticar a fraternidade entre os seres, e descobrimos que podemos testemunhar tudo o que acontece, sem mais nenhuma impressão que desmonte o nosso ânimo ou o nosso coração.
Tudo tem a sua própria solução.
Hari Om


Sara Deva
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